27 de ago de 2012

"Será que existe Manga Nacional?" É séria essa pergunta?



Alguém em 2012 ainda faz essa pergunta? A pelo menos seis anos eu escuto essa mesma ladainha e vai quadrinho do Marcelo Cassaro e vem quadrinho do Cassaro, sempre aparece alguém me perguntando: "Você desenha Manga?" E eu educadamente respondo: "Não...", então sofro aquilo que dói no coração de qualquer ilustrador e/ou quadrinista... "Mas parece... tem olho grande e...".

Meu Deus do céu... porque todos insistem em discutir esse assunto?

Isso só levanta duas questões:
1) O que faz um quadrinho ser considerado um genuíno Manga? 
2) Porque no Brasil o estilo não emplacou se em outros países como EUA e França existe títulos nacionais de sucesso? 
3) Eu preciso realmente seguir um estilo/escola de quadrinhos?

Vamos as minhas respostas...



1) Um velho ditado diz: "Você é o que você come!" Em outras palavras, um aspirante a ilustrador que busca apenas o Manga como referencia, obviamente, varia reproduzir...Manga! Mesmo assim se você está lendo esse texto é porque em algum momento da sua vida, você já ouviu falar de Osamu Tezuka e do seu trabalho. E vai concordar comigo que o estilo manga bem como a forma narrativa tem causas mais editoriais do que propriamente iluminações de um grande autor... Manga é pra ser lido rápido, as 22 páginas (uma média) são devoradas em minutos, afinal de contas, os japoneses são um povo de timming. O posicionamento dos quadros, a forma como eles servem a um climax que serve de gancho para próxima edição me lembra Mark Millar quando ele diz em documentário sobre os X-Men que ele escreve suas histórias pensando no fim e depois ele faz com que todos os acontecimentos cooperem para o final esperado... E mais ou menos isso que eu digo sobre o modo de escrever... isso é ser comercial!
Sobre a estilização: traços finos, olhos grandes e talz... nem no próprio Japão isso é uma unanimidade, por exemplo, quanto mais simples o traço, mais infantil é o público. Não podemos comparar por exemplo mangas como Monster (masculino/adulto) com Saint Seiya (masculino/adolescente)... Em curtas palavras, a estilização depende do estilo e do público alvo que você quer atingir...

2) Duas palavras pra você: Holy Avenger (eu juro que ri muito quando lí isso no Facebook, mas tudo bem). Olha minha opinião... que eu garanto é polêmica principalmente pros Otakus e Otomes é que Holy Avenger não é Manga coisa nenhuma! Ele não precisa disso... Erica e Cassaro são fãs de manga? Sim! Usaram alguns recursos do manga? Sim! Isso torna o quadrinho deles manga? Não! O Manga não dá certo no Brasil por um simples motivo que o "Troll dos trolls" sempre lembrou... Nós não precisamos fazer Manga!
Não precisamos criar quadrinhos com meninas de roupas colegiais, nem garotos ninjas saltando casas e muito menos robôs gigantes... O mais inovador no nossa Quadrinho seria fugir disso, apresentar o novo, e acredito que alguns estão tentando, a impressão que eu tenho é que o nosso quadrinho não evolui porque estamos amarrados a estruturas que funcionaram nos anos 90 e 2000...

"Manga Nacional só dá certo se tiver o nome do Cassaro evolvido"... Acho que nem ele concordaria com essa frase...

Recentemente ele e a Erica Horita estão trabalhando em um novo quadrinho "Hero Party", que segue a linha de "Ethora", "Victory" e "Holy Avenger"... eles tem recursos? Não! Eles estão buscando recursos em um site de doações para trabalhos independentes e está dando certo! O ironico é que esse trabalho está voltado pro mercado...pasmem... Americano! Nada de Brasil, nada de Anime Friends, nada de Jambô! Acho que está na hora de você rever os seus conceitos, pois se eles conseguiram, você também consegue...

3) Acho que se você leu até aqui já sabe a resposta da terceira opção... Isso mesmo...Não! Estude muito e veja um estilo que funcione com você... Manga é só uma estilização, não é uma receita de bolo, se sua história for ruim, não há golpes brilhante e olhos gigantes que salvem... será ruim do mesmo jeito. Quebre um pouco a cara, mande o seu trabalho para vários lugares e leve alguns não. Existem aqui no Brasil editoras pequenas interessadas no seu trabalho... Mesmo assim não deu? Tente o exterior...

Concluindo: Essa discussão é tão sem sentido, quando ficar divagando se o Mauricio de Souza deve ou não chamar TMJ de Manga...

7 comentários:

  1. o próprio governo japonês, as editoras lançam concursos internacionais e vários pesquisadores de quadrinhos consideram mangá como estética, vale lembrar que esse ano o Ricardo Manguinha ficou em segundo lugar no concurso da Kodansha.

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  2. Concordo plenamente com você, mas existem dois pontos a se destacar: Primeiro, o fator estético do mangá não reside na simplificação do traço, nos olhos grandes, traço fino, e outros, mas justamente na estrutura narrativa, posicionamento dos quadros, timming, storyteller, ganchos, clímaxes e anticlimaxes,; em suma, exatamente as ferramentas ou receitas de bolo que fazem seu sucesso comercial. Mas como qualquer receita, depende da bagagem cultural do criador atrelada mais ao roteiro que a arte (que os próprios japoneses sempre ressaltam, deve ser subordinada do roteiro).

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  3. Segundo, o quadrinho nacional em geral, vai pra frente sim, e podes-se dizer que já encontramos nossa estética. Digo isso pelos sucessos comerciais que autores brasileiros vem tendo, justamente não copiando maneirismos na arte, e sempre pensando em histórias mais reflexivas, partindo para uma concepção mais Indie, se você preferir. Sucessos como “Cachalote”, “Daytripper”, “Xampu” ou “Bando de Dois, são exemplos fáceis. É lógico que as editoras estão despreparadas para esse tipo de material, mas estão começando a se mexer, pois etão perdendo artistas para o mercado Indie norte-americano.

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  4. Segundo, o quadrinho nacional em geral, vai pra frente sim, e podes-se dizer que já encontramos nossa estética. Digo isso pelos sucessos comerciais que autores brasileiros vem tendo, justamente não copiando maneirismos na arte, e sempre pensando em histórias mais reflexivas, partindo para uma concepção mais Indie, se você preferir. Sucessos como “Cachalote”, “Daytripper”, “Xampu” ou “Bando de Dois, são exemplos fáceis. É lógico que as editoras estão despreparadas para esse tipo de material, mas estão começando a se mexer, pois etão perdendo artistas para o mercado Indie norte-americano.

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  5. Acho é que o “Mangá” nacional é que não vai para frente, justamente porque é uma tendência do artista nacional imitar os mesmos maneirismos citados acima, em vez de estudar à exaustão as estruturas narrativas que são o verdadeiro mangá, e se aperfeiçoar como autor e artista, ler literatura em vez de ficar preso aos mesmos medalhões batidos do mangá japonês. Em sua ultima visita ao Brasil, Yoshiuki Tomino foi convidado a dar uma olhada no mangá produzido por aqui, e surpres!, o homem responçável pelo sucesso mundial Gundam disse que aquilo era tudo, menos mangá, e aconselhou a parar de imitar traço, e estudar narrativa. Precisa dizer mais... Eu sou leitor, pesquisador e professor de mangá à dez anos, e 95% dos alunos que passaram pelas minhas aulas estavam equivocadamente atrás de um “traço Mangá”, e boa parte não se satisfez em descobrir que o mangá não está no traço. E tive que desenvolver uma estrutura meio opressora através dos anos com meus alunos, justamente para obrigá-los a construir uma maior bagagem cultural, para que ao final, essa mesma bagagem se tornasse o sabor especial ou marca d’água no seu trabalho. Fazia seções regulares de animes com abordagens mais profundas de roteiro, sugeria leituras obrigatórias para qualquer escritor, além da aplicação maciça das estruturas narrativas e de roteiro.

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  6. Funcionou com alguns, mas aqueles que se dispuseram a buscar o conhecimento hoje estão terminando seus cursos de faculdade, e os outros, bem, os outros, nem preciso dizer, né? Continuam andando em círculos. Pra resumir, meus alunos são reflexo de um todo maior, projetos de um mercado orientado mais para o consumismo que para o consumo sustentado na qualidade do produto. Fato é que isso constrói mentes viciadas que sustentam um mercado viciado, que formará outros.
    Esse papo de “mangá brasileiro não tem sentido mesmo, mas é sem sentido porque o artista nacional de mangá ou qualquer outro nome que se possa dar, precisa ser original, mas precisa conhecer os macetes e estruturas daquilo que ele pretende, e também tem que compreender o mercado como um todo, além de não se render a qualquer dinheiro fácil.

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  7. Só complementando: esse cabedal só vem com estudo, disciplina, honestidade e humildade...

    Silvio Costa
    s.i.l.l.v.i.o.d@gmail.com

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